- Publicidade -

Amor, solidão e o combate à violência doméstica

Giss Zarbietti
4 Minutos de Leitura

Quer receber as notícias mais importantes em primeira mão?
Entre em nosso grupo no

Desconstruir o mito do amor romântico, em que o cônjuge se vê na obrigação de fazer o outro feliz, talvez seja o caminho mais desafiador e autêntico de se construir relacionamentos saudáveis e combater a violência doméstica, intrafamiliar e os crimes de feminicídio. Reconhecer o próprio valor numa sociedade que valoriza o consumismo e a superficialidade das relações humanas, tão evidentes nesses tempos de hiperconectividade e hegemonia das redes sociais é um passo fundamental para se recusar a viver relações tóxicas.

Essa experimentação exige coragem para se entregar à solitude e desenvolver a própria identidade. Relacionamentos construídos como válvula de escape apenas para sair da casa dos pais, para preencher o vazio interior que não para de crescer nos ambientes de interação virtual ou procurar no outro o que não resolvemos dentro de nós podem gerar submissão, infelicidade e até ciclos de violência.

A solitude voluntária não está ligada ao sofrimento. Ao atravessar a própria escuridão aprendemos que podemos ser uma grande companheira para nós mesmas e, a partir daí, se doar inteira para um relacionamento. Friedrich Nietzsche, renomado filósofo alemão, diz que sem a solidão o amor se torna uma fuga, uma dependência emocional porque não pode ser encontrado fora de nós. Em outras palavras, ele diz que não se pode buscar no outro a solução para os próprios vazios.

Para Nietzsche, é na solidão que está a capacidade de amar. Ele a via como uma força poderosa, capaz de impulsionar o indivíduo a transcender a si mesmo e a buscar valores mais elevados até encontrar sua própria essência. No entanto, alertava para os perigos do amor, que pode levar à dependência e à perda da individualidade. Para ele, se o amor for experimentado sem solidão, torna-se forma de conformismo e obsessão.

Tema recorrente na obra de Clarice Lispector, a solidão não é retratada pela autora apenas pela ausência de outras pessoas, mas um estado de espírito ideal para o desenvolvimento de uma individualidade forte. É através da solidão que os personagens de Clarice buscam por identidade e são confrontados com seus medos, angústias e desejos mais profundos. A solidão, como mostrada em suas obras, é uma ferramenta para crescimento emocional e construção de relações saudáveis.

Ao mergulhar em seu interior, enfrentar suas sombras e suportar a própria companhia e presença é possível se libertar da ilusão de que o outro pode preencher o vazio. E assim, se conhecendo, se aceitando e se amando não há necessidade de projetar as dificuldades na relação a dois, o que é fundamental para a construção do amor autêntico defendido pela filósofa existencialista Simone de Beauvoir.

Sem a solidez de uma vida interior o amor pode se transformar em uma obsessão destrutiva que resulta na violência doméstica, intrafamiliar e nos crimes de feminicídio. O amor verdadeiro não nasce da carência, mas da completude. Somente um indivíduo que aprendeu a amar a si mesmo na solidão é capaz de amar verdadeiramente o outro. Quando esse amor transcende o ego e a individualidade expandindo-se para algo maior, pode até mesmo impactar outras vidas e o mundo ao seu redor.

Compartilhar este Artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de saber...

Últimos dias: Campanha de Multivacinação termina dia 31 deste mês

Quase 500 mil crianças e adolescentes até 15 de idade já se…

Lailson Nascimento

Ilhabela aposta em robô caiçara em nova campanha para atrair turistas no inverno

Campanha da RP Propaganda traz Mar.IA, guia virtual que auxilia turistas do…

Redação Leia SP

Penha, na zona leste de SP, receberá próxima edição do Câmara na Rua

O Câmara na Rua é um projeto de educação política e participação…

Redação Leia SP
- Publicidade -