Cultura, meio ambiente e a capacidade de sentir

Giss Zarbietti
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As transformações sociais são frutos das nossas emoções. É a partir do que sentimos que mudamos o espaço público e alteramos nossa realidade. Esses tempos de retrocesso civilizatório marcado pela retórica do ódio, manipulações algorítmicas e em que apostas online são também formas de entretenimento exigem cada vez mais pessoas capazes de tocar almas à frente das instituições para promover os avanços que nossa sociedade a tanto anseia. As crises do nosso século, a começar pela climática, tornam esse desafio ainda mais emergente a ponto de questionar nossa formação cultural.

Consequência do nosso modo atual de produção e consumo e resultado de hábitos errôneos que reduziram a natureza a um bem material as mudanças climáticas escancaram todas as contradições, assimetrias e desequilíbrios da nossa sociedade. Mostra ainda que a defesa do meio ambiente está intrinsicamente ligada ao respeito a nossa ancestralidade, fundamental para construir uma sociedade alicerçada em valores éticos. Por tudo isso é inconcebível desassociar a cultura da natureza.

Entender que somos parte da natureza e não existe um ecossistema sem a própria espécie humana é condição essencial para superar essa e outras crises, assim como a econômica, política, previdenciária, educacional e da saúde, que se convergem ao instante que decorrem da consequência de nossos comportamentos. Essa constatação desafia a questionar os rumos e a forma como tratamos e concebemos nossa cultura. Ao olharmos o mundo do ponto de vista da escassez no senso de humanidade entendemos a importância da dimensão de um projeto cultural.

Daí a necessidade de romper com o olhar estigmatizado de relacionar e conceber a sociedade como coisa. Tratar a arte e a cultura como negócio é o mesmo que tratar a crise climática como negacionismo. Num contexto de tanta miserabilidade cultural que reduziu a natureza a um produto, a arte precisa transcender a visão mercantilista, pois é de onde emergem nossas emoções. Toda criação humana resulta de nossos sentimentos partindo da capacidade de tocar a alma.

Foi da dor de quem se alimentou de panelas vazias que o Brasil saiu do mapa da fome. Foi do inconformismo de um médico que não suportava a agonia provocada pelas infecções durante a guerra que surgiu a penicilina. Foi de quem sentiu na pele a segregação racial que emergiram vários movimentos de libertação, direitos humanos e justiça social mudo afora.

Superar as crises que vivemos e fazer nossa sociedade avançar enquanto civilização exige criar um novo ciclo de desenvolvimento que modifique as relações entre trabalho, gestão de políticas públicas, prestação de serviços e convívio social. Olhar a arte e a cultura não apenas como geração de emprego e renda, mas como um processo capaz de recuperar nossa capacidade criativa de fazer os enfrentamentos que nosso tempo precisa depende de coragem e ousadia. Sobretudo, de gestores, lideranças e autoridades capazes de sentir nossas dores, acolher experiências de vida e traduzi-las em ações concretas com forte impacto social.

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