Nos primeiros seis meses da atual legislatura da Câmara Municipal de São Paulo, o vereador e Presidente da Casa, Ricardo Teixeira (UNIÃO), teve de atuar como “um síndico”, auxiliando no desenvolvimento de uma dinâmica de trabalho eficiente e respeitosa entre os parlamentares, muitos deles ainda começando suas vidas públicas. A definição foi feita pelo próprio, em entrevista exclusiva ao Leia SP.
No gabinete da Presidência, o parlamentar, que cumpre seu sexto mandato, falou à reportagem que, mesmo diante de uma legislatura marcada pela polarização ideológica e pela renovação, conseguiu promover diálogo e avanços em iniciativas de aproximação com a população.
De acordo com ele, o início do ano foi marcado por aprendizados, mas não só aos novos vereadores, mas também para ele. “Como eu nunca participei da mesa, nunca fui Presidente, eu tinha que me preparar para isso. Então, eu passei o primeiro mês desse semestre me preparando, conversando com os ex-presidentes, aprendendo um pouco como é esse dia a dia, dialogando com os mais novos. Você acaba sendo um elemento de ajuda para todo mundo. Para mim também foi bom, porque fui me preparando, fui aprendendo”, conta.
Teixeira falou também sobre a nova geração de políticos, muitos deles eleitos por uma forte presença digital, ou por causas específicas, ao invés das tradicionais campanhas por território. Para ele, não se trata de um problema, mas de um reflexo da sociedade: “A gente tem que entender que essas pessoas vieram cada uma de um segmento e não mais território, como era no passado. A Câmara representa a sociedade. Se a sociedade elegeu um vereador internauta, é porque a sociedade vive na internet. Se elegeu um vereador por causa de um time de futebol, é porque aquele time de futebol é a maioria.”
E nem ele fugiu dessa lógica. Apesar de ainda manter uma base territorial forte na Zona Leste, o próprio Teixeira reconhece que tem incorporado pautas de interesse mais amplas, como a criação da “Faixa Azul” para motociclistas, o que o aproximou de um eleitorado mais segmentado. “Eu também peguei um pouco desse voto de classe, de segmento. Mas continuo atendendo da mesma forma”, afirma.
A renovação dos quadros, aliada ao teor bélico da campanha eleitoral de 2024 na capital paulista, gerou uma expectativa de que a Câmara paulistana se tornasse um ambiente marcado por duros embates, o que não se confirmou, muito graças à liderança de Ricardo Teixeira.
“Muitos apostavam que ia ser difícil fazer esse dia a dia, mas eu acho que a Casa entendeu que as diferenças existem, mas criamos aqui, independente das diferenças que a gente tenha no dia a dia, de visão do mundo, de visão da política, um corpo de trabalho onde os 55 são respeitados, os projetos têm que andar, sabendo que aqui cada um representa uma fatia da sociedade, e que tem que ser respeitado pelo outro que representa uma outra fatia da sociedade”, disse o Presidente, que completou com uma brincadeira: “Eu diria que, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.”
Uma das principais marcas da atual gestão é o projeto Câmara na Rua, que leva parte das atividades do Legislativo municipal até os bairros da cidade. A proposta, segundo o presidente, nasceu de uma sugestão de sua equipe e teve aceitação imediata. “A população vota e, no dia seguinte, já não lembra mais em quem votou. Aproximar a Câmara das pessoas é essencial para fortalecer a democracia”, diz.
O vereador defende que a desconexão entre população e representantes enfraquece as bases democráticas. “O vereador é o elo mais próximo do cidadão. Se até ele está distante, alguma coisa está errada.” Por isso, a gestão tem apostado também no programa Câmara Aberta, que abre as portas do Palácio Anchieta ao público em feiras, visitas guiadas e atividades culturais. “Este é o maior parlamento da América Latina. É um palácio, tem arte, tem história. A população precisa conhecer isso, participar.”
Outro esforço para reforçar esse elo será o Câmara na Mão, aplicativo em desenvolvimento que permitirá aos cidadãos acompanhar projetos de lei, audiências públicas e votações dos vereadores em tempo real. A previsão de lançamento é para o segundo semestre. “A ideia é que a população acompanhe tudo o que o seu vereador faz. É uma prestação de contas direta, moderna e transparente”, adianta.
Confira a entrevista com o presidente da Câmara, Ricardo Teixeira:
Teixeira: ‘Se a população está distante, alguma coisa está errada na democracia’
LeiaSP: Uma das principais iniciativas desse mandato do senhor na Presidência é o projeto Câmara na Rua. Queria que o senhor falasse sobre ele.
Ricardo Teixeira: A população vota e no dia seguinte já não lembra mais em quem votou. Hoje 70% já não lembra mais. Essa ideia de levar a Câmara até perto da população é justamente para a gente aproximar de novo a população do seu parlamentar. Para mim, com essa distância, a democracia fica perigosa, ela começa a ficar frágil.
O vereador, principalmente, é esse elo mais próximo do cidadão, porque o deputado fica um pouco mais longe. Se o vereador, que é o mais próximo da população, não tem essa proximidade, alguma coisa está errada na democracia.
Junto veio o Câmara Aberta. Já que isso aqui é a casa do povo, então vamos trazer o povo para cá, vamos incentivar. A gente faz feira aqui, convida para visitar esta sala, tem um guia que anda por todo o prédio. A gente chama a população para cá, é um final de semana festivo.
É um palácio, tem obra de arte, tem história, tem cultura. É importante que a população, além de não perder o elo, participe, que ela venha aqui participar.
Por último, dentro de tudo isso, de deixar a população próxima de nós, tem o Câmara na Mão, um aplicativo que a gente está desenvolvendo – e, se Deus quiser, agora no segundo semestre a gente lança –, para que a população acompanhe tudo o que o seu vereador faz. Lei, projeto, audiência pública, enfim.
Todo esse esforço é para que a gente consiga ficar perto da população e que a população acompanhe o nosso voto.
LeiaSP: Entrando na política. Como tem sido a relação do senhor com o prefeito, Ricardo Nunes (MDB)?
Ricardo Teixeira: Amigo, parceiro, companheiro. Tudo que a gente leva, ele é muito proativo. É um amigo, ficou oito anos aqui com a gente. Ele administra a cidade com os pés no chão, vê o dia a dia da cidade.
A relação nossa é de amizade. São poderes diferentes. Lá é Executivo, aqui é Legislativo, mas não tem problema, a gente caminha juntos. Eu já fui secretário dele, de Mobilidade e Trânsito. Eu tenho uma relação pessoal com ele e torço para que ele vá para outros cargos maiores, porque acho que o Brasil merece.
LeiaSP: Ano que vem tem eleições estaduais e federais, e o nome dele é um dos cotados para concorrer ao Governo caso o governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tente a Presidência. O senhor acha que Nunes deveria ser candidato a governador?
Ricardo Teixeira: É natural que um prefeito indo bem, como o Ricardo está indo, ganhando uma reeleição difícil como foi, que o nome pontue.
É bom que ele seja governador? Por tudo isso que eu já falei, sim. O cara está preparado e olha para o futuro. Veja a quantidade de obra que está aqui, porque acertou a casa, está conseguindo fazer muitas obras. É um cara preparado para ser governador. É jovem, tem uma saúde boa, está bem.
É uma disputa grande, mas eu enxergo que o Ricardo Nunes está um pouquinho à frente.
LeiaSP: Um tema polêmico que foi trazido para a Câmara nos últimos tempos foi a propositura da chamada “Lei Anti-Oruam”, pela sua colega de partido Amanda Vetorazzo. O que o senhor acha disso?
Ricardo Teixeira: Esquece o nome do artista, do cantor. Vou perguntar para você: você concorda que o dinheiro que você paga de imposto vá para fazer show de uma banda ou conjunto que vai fazer apologia ao crime e à droga?! Eu sou contra. E acho que não dá para pegar dinheiro público e investir para alguém fazer campanha para jovem sobre droga.
Esquecemos o artista. Não dá para colocar dinheiro público em coisa que está indo contra a lei, seja qualquer lei. Estou falando essa porque você citou, mas no Brasil é proibido o aborto, então nós vamos botar dinheiro público para fazer pagando a favor do aborto? Não, é contra a lei.
LeiaSP: Críticos a essa proposta dizem que se trata de uma forma de censurar artistas…
Ricardo Teixeira: É por isso que eu expliquei. Não é questão de censura, é crime. Você pega um dinheiro público para fazer um tipo de show desse, um tipo de propaganda dessa, ao meu ver não é censura. Você está indo contra uma lei. Mude a lei, mas não vá contra ela com dinheiro público.
No Brasil você pode ter cassino? Se você abre um cassino lá na tua casa, a polícia vai lá, fecha e prende. Por quê? Porque você está contra a lei. Essa é a regra. Nós brasileiros estamos abrindo muitas coisas aqui e esquecendo que tem uma regra. Muda a regra, então.

