Quando o corpo vira assunto público: o impacto do julgamento sobre a aparência

Psicóloga da Hapvida analisa o caso de Ariana Grande para refletir sobre pressão estética, exposição pública e os limites da intimidade
Redação Leia SP
6 Minutos de Leitura

Quer receber as notícias mais importantes em primeira mão?
Entre em nosso grupo no

O anúncio de que Ariana Grande pretende reduzir sua exposição pública após o encerramento de sua turnê, em setembro, reacendeu uma discussão importante. Segundo um representante da artista, a decisão ocorre em meio ao escrutínio constante sobre sua aparência e seu corpo. O episódio pode servir como ponto de partida para uma reflexão coletiva, mas não nos autoriza a diagnosticar a cantora ou deduzir seu estado de saúde a partir de fotografias.

Vivemos em uma sociedade na qual o corpo ainda é tratado como medida de beleza, saúde e valor pessoal. Nas redes sociais, comentários como “está magra demais”, “precisa comer” ou “antes parecia mais saudável” podem ser apresentados como preocupação. Entretanto, mesmo quando não existe a intenção de ofender, a repetição desses julgamentos pode ser invasiva e emocionalmente desgastante.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) compreende a saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social. Essas dimensões estão relacionadas, não reduzidas à composição corporal visível. Uma imagem não revela exames, histórico clínico, hábitos, contexto de vida ou acompanhamento profissional. Quando existe uma preocupação verdadeira, o cuidado deve proteger a privacidade e a dignidade da pessoa, não transformar seu corpo em debate público.

A forma como nos enxergamos vai muito além da aparência. Ela é construída ao longo da vida e envolve pensamentos, sentimentos e crenças influenciados pelas experiências pessoais e pelo ambiente em que vivemos. Quando a preocupação com a imagem se torna constante, aumenta a tendência de vigiar o próprio corpo, alimentando inseguranças e a sensação de que é preciso atender às expectativas dos outros.

Esse impacto é confirmado por estudos científicos. Uma meta-análise conduzida pelas universidades de Mannheim e de Tréveris, na Alemanha, reuniu mais de cem pesquisas publicadas entre 1991 e 2019, envolvendo mais de 59 mil participantes. Os resultados mostraram que pessoas expostas ao estigma relacionado ao peso apresentam, com mais frequência, insatisfação com o próprio corpo, sintomas de depressão e pior qualidade de vida. Outras pesquisas também apontam que o julgamento constante da aparência pode favorecer o desenvolvimento de uma relação pouco saudável com a alimentação.

Para uma figura pública, um único comentário pode se multiplicar em milhares de mensagens, manchetes, montagens e comparações. Aos poucos, o trabalho, o talento e a história da pessoa passam a ocupar menos espaço do que seu peso, seu rosto ou sua idade.

Essa pressão também alcança quem passa boa parte do tempo nas redes sociais. Ao comparar a própria aparência com imagens cuidadosamente produzidas e editadas, muitas pessoas acabam desenvolvendo uma percepção mais negativa sobre o próprio corpo. Uma revisão conduzida pela Universidade de Palermo reuniu 83 estudos com mais de 55 mil participantes e mostrou que esse tipo de comparação está associado a uma maior insatisfação com a imagem corporal e ao aumento de sintomas relacionados aos transtornos alimentares.

O problema é que os padrões de beleza difundidos nesses ambientes são cada vez mais restritivos e, muitas vezes, contraditórios. A mesma pessoa pode ser alvo de críticas por estar acima ou abaixo do peso, por aparentar mais idade, por mudar a aparência ou até por permanecer igual. É uma busca por uma aprovação que muda o tempo todo e que, na prática, nunca pode ser plenamente alcançada.

Existe diferença entre interesse público e curiosidade pública. A fama não retira o direito à intimidade. O corpo e possíveis condições de saúde não se tornam propriedade coletiva porque alguém é conhecido. Fazer diagnósticos a distância, compartilhar comparações de “antes e depois” ou pressionar alguém para explicar mudanças físicas são comportamentos invasivos e cientificamente frágeis.

Quando temos vínculo e preocupação real com uma pessoa, podemos perguntar de maneira reservada: “Como você está?” ou “Posso ajudar em alguma coisa?”. Quando não existe proximidade, é mais respeitoso comentar o trabalho, a criatividade ou as atitudes, em vez de avaliar o corpo. Algumas atitudes podem ajudar a fortalecer a autoestima e a proteção emocional:

  • Estabelecer limites nas redes sociais, restringindo comentários e silenciando conteúdos que estimulam comparações;
  • Deixar de seguir perfis que provocam sentimentos frequentes de inadequação;
  • Reconhecer que o valor pessoal também está nos vínculos, habilidades, valores, projetos e conquistas;
  • Praticar autocompaixão, substituindo a autocrítica por uma maneira mais justa e respeitosa de falar consigo;
  • Buscar apoio psicológico quando o sofrimento interfere na alimentação, no sono, nas relações ou na rotina.

Um estudo experimental, conduzido pela Universidade Mcgill, no Canadá, mostrou que a redução do tempo nas redes sociais produziu melhora de curto prazo na autoestima relacionada à aparência e ao peso. Isso não significa que exista um tempo ideal para todos, mas reforça a importância de perceber como determinados conteúdos afetam cada pessoa.

A decisão de Ariana Grande pertence a ela, e não precisamos conhecer todos os detalhes de sua vida. O aprendizado coletivo está na forma como participamos dessa cultura de julgamento. Podemos informar sem especular, demonstrar cuidado sem invadir e admirar alguém sem exigir acesso à sua intimidade.

Muitas vezes, o comentário mais humano sobre o corpo de outra pessoa é o silêncio.

>> Entre no nosso grupo do WhatsApp – clique aqui

Compartilhar este Artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de saber...

Dia das Crianças no Hospital Santana reúne afeto, arte e amor em quatro patas

O destaque ficou a cargo de Nuha, um cão terapeuta, que, com…

Redação Leia SP

Vereadores de Guarulhos aprovam divulgação de lei que permite assistência religiosa em hospitais

Proposta busca dar visibilidade ao direito de visita religiosa e evitar descumprimento…

Redação Leia SP

Lula passa por novo procedimento no crânio

Procedimento complementar serve para prevenir que lesão original retorne; presidente passa bem,…

Redação Leia SP