Quando se fala em melanoma, logo se associa ao câncer de pele. O que pouca gente sabe é que esse tipo de câncer – que tem menor incidência e é mais letal – também pode se manifestar de forma extracutânea em diversos órgãos, estruturas oculares e mucosas, como os sistemas genitais e digestório, além da cavidade oral. São estimados 9.360 novos casos de melanoma de pele para este ano.
“Embora seja menos frequente do que o câncer de pele não melanoma, o melanoma é mais agressivo. Portanto, cada oportunidade de diagnóstico precoce tem um valor imenso. Afinal, por trás dos dados, existem pessoas, famílias e histórias que dependem de decisões bem fundamentadas, de profissionais preparados e de um sistema de saúde capaz de responder aos desafios impostos pela doença”, defende o oncologista e diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni.
Foi por esse motivo que, segundo ele, a Fundação realizou esse estudo que contempla incidência, mortalidade, letalidade, distribuição geográfica e tratamentos adotados nas diferentes regiões.
“Esse conjunto de informações permite compreender melhor a realidade brasileira e identificar caminhos para aprimorar o cuidado”, justifica Maltoni.
Ao reunir e analisar os dados de 33 Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP) e de mais de 350 Registros Hospitalares de Câncer (RHC) disponíveis no país, os epidemiologistas e estatísticos da Fundação do Câncer evidenciaram que os casos de melanoma de pele ocorreram principalmente em mulheres (51,3%) na região da face, membros inferiores e superiores, nesta ordem. Já nos homens (48,7%), as partes mais afetadas são orelha, couro cabeludo, pescoço e tronco.
A análise integrada das bases mostra um paradoxo ao observar que as regiões com menores incidência e mortalidade apresentam uma maior letalidade, como é o caso da região Norte, o que pode sugerir diagnóstico tardio e barreiras de acesso.
No Centro-Oeste, a situação também chama a atenção. A região apresenta a maior letalidade do país (0,33) para o sexo masculino e 20,2% dos pacientes precisam se deslocar para outras regiões em busca de tratamento oncológico, evidenciando um importante gargalo de acesso à assistência especializada.
Já o Sul, apesar de registrar a maior incidência, com 44,40 casos por milhão — mais que o dobro da média nacional (19,20), a letalidade (0,21) é semelhante. O Sudeste, por sua vez, lidera a realização de cirurgia como primeiro tratamento, com 89,6% dos casos.
“As informações mostram que a incidência, isoladamente, não é suficiente para avaliar o impacto da doença. A disponibilidade de serviços especializados, o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento adequado são fatores fundamentais para melhorar os resultados e reduzir as desigualdades regionais na assistência oncológica”, observa o epidemiologista Alfredo Scaff, consultor médico da Fundação e coordenador do estudo Melanoma, nem sempre na pele.
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Extrapele
A 12ª edição do boletim info.oncollect revela a importância diagnosticar precocemente os casos de melanoma extracutâneo devido a sua alta letalidade. Os dados mostram que entre 1990 e 2021 foram registrados 1.324 novos casos nos 33 RCBP analisados, sendo o olho a principal localização primária (75,0%), seguido pelos sistemas genitais (12,8%) e pelo sistema digestório (8,2%).
Scaff, salienta que, diferentemente do melanoma cutâneo, o ocular pode permanecer assintomático nas fases iniciais e ser identificado apenas em exames de rotina. “Quando presentes, os sintomas são inespecíficos, como visão embaçada, flashes luminosos, manchas no campo visual e perda visual, podendo retardar o diagnóstico. Por isso, é importante que desde a sua formação, os oftalmologistas sejam introduzidos ao assunto e adotem a observação ativa em seus consultórios, encaminhando casos suspeitos para o oncologista”, defende.
Imunoterapia: muito mais eficiente, mas alto custo dificulta acesso
No contexto da de introdução de novos tecnologias para o tratamento oncológico, o principal avanço foi a imunoterapia, com a aprovação pela Anvisa dos medicamentos Nivolumabe e o Pembrolizumabe em 2016, que passaram a ser utilizados para tratar diferentes formas de melanoma avançado, incluindo os extracutâneos, como o de mucosa. E mais recentemente o Tebentafuspe, imunoterapia específica para o melanoma uveal/ocular inoperável ou metastático.
Recomendada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) e aprovada pela Anvisa em 2025, a nova terapia deu um salto inestimável para o tratamento desse tipo de câncer.
“Até então, o uso de quimioterapia era o padrão de tratamento disponível e recomendado pelo SUS, mas resultava em uma resposta clínica baixa, com taxa de resposta não superior a 10%. A introdução da imunoterapia como terapia-alvo trouxe uma mudança disruptiva neste cenário, elevando as taxas de resposta para até 70% e proporcionando curvas de sobrevida substancialmente superiores às observadas historicamente para esse perfil de paciente”, explica o epidemiologista da Fundação. “No entanto, o alto custo do medicamento ainda representa uma barreira de acesso ao tratamento”, complementa.
O estudo completo feito pela Fundação do Câncer está disponível em https://www.cancer.org.br/publicacoes/info-oncollect/.
